Curso ICP - A Nossa Lingua 2024-25 - 1

 Aqui apresento as minhas contribuições à minha aula preferida do ICP. Os erros ficam da minha responsiblidade, porque não sou nativa...

O tema do ano académico foi a Amizade, e o conto de Luísa Costa Gomes, "O Velho Senhor", foi a primeira obra que limos.

"O Velho Senhor" de Luísa Costa Gomes

Neste conto, as últimas frases apresentam-nos um enigma: como interpretar o comboio e a viagem que faz nele o Velho Senhor. Aqui vamos considerar três possíveis interpretações.

Na primeira, o Velho Senhor lembra essa viagem em que os amigos o vigiavam sigilosamente e desde uma distância discreta. Pode-se imaginar que eles confessaram depois como tinham planeado e executado o acontecimento junto com a filha Remédios. Embora, já saibamos que o Velho Senhor esquece muitas coisas, sinal de que padece de Alzheimer ou de demência, e é mais que provável que ele tem esquecido também essa viagem.

Na segunda interpretação, ele lembra um compósito das viagens que fez na mesma linha perto do mar e com os amigos do coro. Diz textualmente que ele “sentava-se no seu lugar, umas vezes como si próprio, outras na forma de fantasma de si próprio”. Com a sua enfermidade, é possível que às vezes tivesse períodos de lucidez e lembrasse episódios da sua vida que tinham deixado uma forte impressão.

Nestas duas versões, o Velho Senhor está vivo, e sonhando com viagens verdadeiras feitas no passado. Embora, na terceira interpretação deste conto, e a que eu favoreço, ele já está morto, e o comboio é uma metáfora da última viagem da vida, a passagem da vida à morte.

Um indício que suporta este argumento radica no texto, na palavra “costados” para descrever os laterais do comboio como se fosse um barco. É uma referência, talvez, ao barco que cruzava os rios Aqueronte e Estige na mitologia greco-latina, levando os mortos ao outro mundo.

Neste caso, a “mensagem de sossego” que recebe a Remédios seria interna, mental, confortando-a com a certeza de que o pai está agora reunido com os seus amigos no outro mundo, como na viagem de tempos atrás.

Pode-se perguntar, porém, porque o Pires está atrás do Velho Senhor no comboio, quando ele morreu antes, tal como os outros dois amigos, Lemos e Pina. Uma possibilidade é que a autora queria que a viagem mitológica fosse muito parecida à viagem real, e sabemos que os três amigos não se sentavam na mesma carruagem. Outra é que, dada a perda de memória sofrida pelo Velho Senhor, pode-se dizer que ele morreu antes do Pires, porque sem inteligência, sem consciência de si mesmo, o homem já não é uma pessoa senão um fantasma.

Já que, para interpretar o conto, não há uma reposta “correta”, porque não podemos saber qual a intenção da escritora, cada leitor tem o direito de escolher a que lhe agrada, e a minha escolha é a terceira das expostas. Para mim, há uma semelhança entre a viagem da morte e a do Alzheimer ou demência – que não são iguais, deve ser dito, bem que tenham efeitos similares – sendo que a pessoa falece ou rapidamente, como os três amigos do Velho Senhor, ou pouco a pouco, como ele. O que encontro ainda mais interessante neste conto, é que a mãe da Remédios morre da mesma doença, mas sem a mesma resistência que o pai. Pelo tanto, acho que a autora, mais que tudo, escreveu uma meditação sobre a morte e sobre os efeitos terríveis desta doença que é tão comum hoje em dia e que faz perder a consciência do que significa ser humano.

Violet Long 06-11-2024

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