Curso ICP - A Nossa Lingua 2024-25 - 4

 

O MENINO À JANELA

Durante a guerra, fui destinada a uma aldeia para trabalhar na agricultura. Cada manhã, ia de bicicleta da casa onde estava hospedada à quinta e voltava à tarde. Quando chegou o outono, já anoitecia durante o trajeto mas não me incomodava porque havia pouco trânsito na estrada e a lâmpada da bicicleta iluminava-a o suficiente.

Sempre passava uma casa meio abandonada onde não havia sinais de vida. Mas nas noites com lua, veia um menino à janela dessa casa. Tinha a cara muito pálida e a expressão dos olhos era tão triste que me impressionou. Depois de vê-lo varias vezes, comentei o do menino à proprietária da quinta e ela mirou-me com muita estranheza.

“Ali já não mora ninguém”, disse. “Desde há uns dez anos. Desde a tragédia.”

“Que passou?” perguntei. “E quem eram que viviam ali?” Eu sempre fui muito curiosa!

“Pois, era uma família muito humilde, o pai, que era agricultor, a mãe e dois meninos gémeos de nove anos, o João e o Zé. Eram gémeos, sim, mas não eram bons amigos porque cada um queria ser o preferido da mãe. Aparentemente, um dia os meninos começaram a discutir e a lutar. O João, que era o mais forte, empurrou o Zé e ele caiu no chão, batendo com a cabeça contra o borde da mesa. O golpe foi tão duro que morreu no instante. Depois de isso, a família ficou um tempo na casa mas logo foi embora. Desde esse então ninguém quer viver ali porque dizem que o fantasma do Zé aparece nas noites de outubro, o mês em que faleceu.”

“Meu Deus, então, o menino dos olhos tristes que eu vi era um fantasma,” conclui. “Primeira vez na vida. O que vão dizer os amigos quando lhes conto!”

Violet Long – 05-05-2025

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